5.01.2010

O NASCIMENTO VIRGINAL DE CRISTO



Por

Pr. Antônio Pereira da Costa Júnior

TEXTO BÁSICO: Isaías 7.14

OBJETIVO DA LIÇÃO: Esta lição tem como objetivo esclarecer sobre o nascimento virginal de Cristo, respondendo a quatro questões fundamentais sobre o assunto: Qual a importância do nascimento virginal de Cristo? Existe prova bíblica sobre o nascimento virginal? Maria é mãe de Deus? O que significa a “filiação eterna de Cristo”?

INTRODUÇÂO: Um dos assuntos mais debatido e controvertido, para alguns, é o nascimento virginal, por meio do qual Jesus assumiu a forma humana. O que será analisada aqui, em suma, é a questão da "concepção virginal". Ou seja, a concepção de Jesus no ventre de Maria foi ou não consequência de uma relação sexual? E o que isso significa para nós cristãos?

Como nos diz Millard J. Erickson[1]: No final do século XIX e no início do século XX, o nascimento virginal esteve no centro do debate entre os fundamentalistas e os modernistas. Os fundamentalistas insistiam na doutrina como uma crença essencial. Os modernistas ou a rejeitavam, considerando-a não essencial ou insustentável, ou a reinterpretavam de alguma forma não literal. Para aqueles, era uma garantia da singularidade qualitativa e da divindade de Cristo, enquanto para estes, parecia um desvio da atenção que se afastava de sua realidade espiritual para fixar-se numa questão biológica.
Mas para entendermos um pouco melhor o que se refere esta controvérsia, vamos examinar as perguntas acima propostas:

(1)   Qual a importância do nascimento virginal de Cristo?

      Jesus nasceu como todos os homens, no entanto sua concepção no ventre de Maria foi de origem divina, sem a participação do componente sexual masculino. Teologicamente chamamos a isso de concepção virginal. Maria era virgem na época da concepção e assim continuou até o momento do nascimento de Jesus. As Escrituras deixam muito claro que José não teve qualquer relação sexual com Maria antes do nascimento de Jesus (Mt 1.25). 

        A influência sobrenatural do Espírito Santo é que tornou possível a geração de Jesus no ventre de Maria. Isso também não significa que Jesus é o resultado de uma relação de Deus com Maria, seria algo inconcebível. A concepção de Jesus foi um milagre, e alguns a negam pelo simples fato de não crer em milagres, daí tentam achar explicações lógicas para os relatos milagrosos da Bíblia.

ü  A importância do nascimento virginal de Cristo se dá pelas seguintes razões:

·         Que nossa salvação é sobrenatural (Jo 1.13): a salvação não vem pelo nosso esforço ou realização.
·         Que a salvação é uma dádiva da Graça (Ef 2.8): assim como não houve nenhum mérito em Maria para que fosse escolhida, da mesma forma acontece conosco quando somos salvos
·         A firmação da natureza sobrenatural da salvação, sem qualquer intervenção humana.
·         A salvação não depende de qualquer qualificação humana (a origem humilde de Maria).
·         Prova da singularidade de Jesus. Ninguém nasceu como Ele.
·         Evidência do poder e soberania de Deus sobre tudo, inclusive sobre a natureza.
·         Cumprimento das profecias com relação ao Messias. Se a profecia de Isaías 7.14 não se cumpriu literalmente, então todas as outras profecias ficariam e cheque. Negar o nascimento virginal é negar a veracidade das Escrituras.
·         Era mister que Cristo se constituísse o Messias e o messiânico Filho de Deus. Conseqüentemente, era necessário que Ele nascesse de mulher, mas também que não fosse fruto da vontade do homem, mas nascesse de Deus.
·         Se Cristo fosse gerado por um homem, seria uma pessoa humana com a semente do pecado em si, incluída na aliança das obras, e, como tal, partilharia da culpa comum da humanidade.

(2)   Existe prova bíblica sobre o nascimento virginal?

A doutrina do nascimento virginal é baseada, essencialmente, em duas referências bíblicas explícitas — Mateus 1:18-25 e Lucas 1:26-38. No entanto, há outras passagens no Novo Testamento que alguns alegam referir ou pressupor o nascimento virginal, e existe a profecia de Isaías 7.14 que é citada por Mateus (1.23). Mas mesmo levando essas passagens em consideração, o número de referências relevantes é bem pequeno, comparado com outras doutrinas bíblicas que geraram controvérsia semelhante, que trazem um número maior – como a divindade de Cristo, por exemplo. O fato de a Bíblia afirmar o nascimento virginal não uma, mas duas vezes, no entanto, é prova suficiente. Uma vez que cremos que a Bíblia é inspirada e autorizada, Mateus 1 e Lucas 1 convencem-nos de que o nascimento virginal foi fato.

Portanto, a doutrina do nascimento virginal baseia-se nas seguintes passagens das Escrituras: Is 7.14; Mt 1.18, 20; Lc 1.34, 35, e também é favorecida por Gl 4.4. Esta doutrina foi confessada na igreja desde os primeiros tempos. O Credo Apostólico, resumo das crenças da Igreja Primitiva, já dizia: “Creio em Deus Pai, Todopoderoso, Criador do Céu e da terra. Creio em Jesus Cristo, seu único Filho, nosso Senhor, o qual foi concebido por obra do Espírito Santo; nasceu da virgem Maria”.

A pergunta 35 do Catecismo de Heidelberg, relacionado com a declaração credal, diz o seguinte: O que você entende, quando diz que Cristo "foi concebido pelo Espírito Santo e nasceu da virgem Maria"? Entendo que o eterno Filho de Deus, que é e permanece verdadeiro e eterno Deus, tornou-se verdadeiro homem, da carne e do sangue da virgem Maria, por obra do Espírito Santo. Assim Ele é, de fato, o descendente de Davi igual aos seus irmãos em tudo, mas sem pecado. Mt 1.23; 3.17; 16.16; 17.5; Mc 1.11; Jo 1.1; 17.3, 5; 20.28; Rm 1.3,4; 9.5; Fp 2.6; Cl 1.15, 16; Tt 2.13; Hb 1.3; 1Jo 5.20; Mt 1.18, 20; Lc 1.31, 42, 43; Jo 1.14; Gl 4.4; 2Sm 7.12; Sl 132.11; Mt 1.1; Lc 1.32; At 2.30, 31; Rm 1.3; Fp 2.7; Hb 2.14, 17; 4.15; 7.26-27. 

(3)   Maria é mãe de Deus (a controvérsia theotokos x christotokos – Cirilo x Nestório)?

O termo Theotókos foi dado a Maria no concílio de Éfeso em 431 d.C., e realçava mais a divindade do Filho do que o privilégio da mãe. Que depois foi deturpado e absorvido pela Mariolaria romana. Houve grande debate entre Cirilo e Nestório. O primeiro defendia o termo Theotokos e o segundo o termo Christotokos. Ou como bem explica o Dr. Joseph Mizzi[2]: O Credo de Calcedônia, 451 d.C., inclui o termo grego “theotokos” para definir a identidade de Cristo. “Theotokos” significa literalmente “portadora de Deus”, que é imprecisamente traduzido para o latim como “Mater Dei” – Mãe de Deus. O termo foi usado para realçar o fato de que a criança nascida de Maria era realmente Deus e assim evitar o erro de dizer que Cristo era duas pessoas em um corpo ao invés de uma. Esta heresia, “Nestorianismo”, foi condenada no Primeiro Conselho de Éfeso em 431 d.C. O Credo afirma que Cristo foi “gerado segundo a divindade pelo Pai antes de todos os séculos, e nestes últimos dias, por nós e para nossa salvação, nascido da Virgem Maria, mãe de Deus, segundo a humanidade”. O credo não ensina que Maria é a mãe da divina natureza de Cristo. Como Deus, Cristo não tem início nem mãe. De fato o credo explicitamente diz que Ele foi gerado “antes de todos os séculos”. Além disso, o credo qualifica o significado de “theotokos” com a frase “segundo a humanidade”, ou, numa outra tradução, “nascido da virgem Maria, que é portadora de Deus em respeito a humanidade dele”. É apenas a natureza humana de Cristo que se relaciona com Maria, de quem Ele nasceu e era descendente.

A Liturgia da Igreja Romana celebra Maria como a Aeiparthenos, “sempre virgem”. No entanto, a Escritura é clara com relação de que Maria teve outros filhos com José: Em Mt 1.24 e 25 está escrito: “E José, despertando do sonho, fez como o anjo do Senhor lhe ordenara, e recebeu a sua mulher: e não a conheceu até que deu à luz seu filho, o primogênito; e pôs-lhe por nome Jesus”. Há dois aspectos interessantes nestes versículos: 1º) O “...até...”; mostra que José conheceu sexualmente Maria depois do nascimento de Cristo; e 2º)  Jesus é chamado de primogênito, ou seja, Jesus é chamado de o primeiro filho gerado por Maria, mostrando que Maria gerou outros filhos. Deus chama Jesus de unigênito (Jo 3.16), ou seja, o único filho gerado. Fica claro que Jesus é o único filho gerado por Deus e o primeiro filho entre os filhos de Maria.

Eusébio de Cesaréia confirma dizendo: “Ainda viviam da FAMÍLIA de nosso Senhor os netos de Judas, chamado IRMÃO DE NOSSO SENHOR DE ACORDO COM A CARNE” (Eusébio de Cesaréia (263-340 d.C), História Eclesiástica, CPAD, 4ª Edição 2003, p. 97 – grifo acrescentado). Veja os textos que falam sobre a família de Jesus: Mt 13.55-58; Mc 6.3-6; Mt 12.46-50; Mc 3.32-35; Lc 8.19-21; Jo 2.12; Jo 7.2-5; At 1.13-14; At 12.17; 15.13, 1Co 9.5; Gl 1.18-20.

(4)   O que significa a “filiação eterna de Cristo”?

O assunto da filiação eterna de Cristo não é muito debatida ou mesmo conhecida para a maioria dos cristãos. Mas, o que quer dizer esta doutrina? Significa dizer que Jesus sempre foi o Filho de Deus mesmo antes da encarnação. Alguns teólogos crêem na doutrina da “filiação encarnacional”, ou seja, Jesus se “torna” Filho de Deus depois da encarnação, e não antes. Isso está intrinsecamente ligado ao tema do estudo. Veja: Jesus não se tornou Filho de Deus porque “nasceu” em Maria. Ele sempre foi Filho de Deus antes de Maria existir. O conhecido pastor John MacArthur Jr[3], que não cria na doutrina da filiação paterna, voltou atrás em sua posição. Veja o que ele diz sobre o assunto:

“...quero declarar publicamente que abandonei a doutrina da ‘filiação encarnacional'. Um estudo cuidadoso e reflexão me trouxeram ao entendimento de que a Escritura, de fato, apresenta o relacionamento entre Deus o Pai e Cristo o Filho como um relacionamento eterno de Pai-Filho...

O que levou este estimado pastor a mudar de opinião, segundo ele, foram duas razões: (1) Estou agora convencido de que o título “Filho de Deus” quando aplicado a Cristo na Escritura sempre fala de sua deidade essencial e de sua igualdade absoluta com Deus, não de sua subordinação voluntária. Os líderes judeus dos tempos de Jesus entenderam isso perfeitamente. João 5:18 diz que eles pediram a pena de morte contra Jesus, acusando-o de blasfêmia “porque não só violava o sábado, mas também dizia que Deus era seu próprio Pai, fazendo-se igual a Deus”. (2) É agora minha convicção de que a geração da qual se fala em Salmos 2 e Hebreus 1 não é um evento que aconteceu no tempo. Mesmo que à primeira vista a Escritura pareça empregar terminologia com insinuações temporais (“hoje te gerei”), o contexto do Salmo 2:7 parece se referir claramente ao decreto eterno de Deus. É razoável concluir que a geração da qual se fala ali também é algo que pertence à eternidade, e não a um ponto no tempo. A linguagem temporal deveria ser entendida, portanto, como figurativa, não literal.

CONCLUSÃO: Pelo que foi proposto acima, entendo que devido ao espaço dado a lição, não dá pra trazer uma exposição completa sobre o assunto. Contudo, os pontos trabalhados servem como um norte para que o aluno possa entender, ou pelo menos, ter uma base das doutrinas relacionada ao nascimento virginal de Cristo. Ainda é preciso reconhecer que existem pontos que os teólogos nunca chegarão a um acordo por se tratar de coisas incompreensíveis para a mente limitada do homem e recebida apenas por fé. E todos aqueles que tentaram explicar o inexplicável, criaram heresias.   




                                                                         SOLI DEO GLORIA NUNC ET SEMPER



PERGUNTAS PARA REFLEXÃO:

  1. Como você entende o papel de Maria na concepção de Jesus?
  2. Há alguma prova bíblica do nascimento virginal, excluindo-se os evangelhos segundo Mateus e Lucas?
  3. Pra você qual a importância de Jesus ter nascido de uma virgem?
  4. Como você entendeu a questão de Jesus ser Filho de Deus?
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O Pr. Antônio Pereira da Costa Júnior nasceu em Esperança – PB. Faz parte do quadro de ministros da Aliança das Igrejas Evangélicas Congregacionais do Brasil. Palestrante e pesquisador na área de Apologética em geral, Técnico Agrícola pela UEPB e Bacharel em Teologia pelo STEC (Seminário Teológico Evangélico Congregacional). Fez um curso de Apologética por extensão pelo ICP (Instituto Cristão de Pesquisas). Especialista em Teologia e História pelo SPN – Seminário Presbiteriano do Norte (Recife). Atualmente faz gestão Pública pela Metodista de São Paulo (EAD - Pólo: Campina Grande) Novo E-mail: oapologista@yahoo.com.br


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[1] Retirado do blog: www.lucianodg.com/teologia/sistematica/apessoadecristo2.doc

Um comentário:

Rita Aparecida Carneiro Camara disse...

A Graça e a Paz, amado Pr. !
Obgda por tão importantes esclarecimentos Bíblicos !
Foram bem aproveitados em estudos !
Q Deus t abençoe. abç.