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10.25.2007

DEUS ME DÊ GRANA

Antônio Pereira da Costa Júnior*

juniorapologista@yahoo.com.br


Mais um módulo do mestrado se aproxima. Tenho dois sentimentos dentro de mim. Só dois: alegria e angustia. Alegria, pelo fato de poder estudar num conceituado seminário no Recife e de aperfeiçoar-me cada vez mais para poder exercer o ministério com mais eficiência. Angustia, de mais uma vez ter que fazer uma ginástica financeira para poder cobrir as minhas despesas – alimentação, transporte e livros – graças a Deus que minha denominação está costeando minha mensalidade.

Estico daqui. Puxo de lá. E sei que vou viajar de novo com a corda no pescoço. Já não me dá prazer passear pelas livrarias recifenses. Todas as vezes que eu entro numa fico a pensar: queria ter muito dinheiro, não para viver nababescamente como muitos pregadores modernos, mas para comprar livros. Sim, livros! Os verdadeiros amigos de todas as horas. Quer sejam boas ou ruins. Eles estão sempre ali, perto, sem interesses, sem falsidades. Não cobram nada, não exigem nada de você, apenas que não lhes esqueçam por muito tempo.

Ai, quando eu escuto os “profetas de hoje” falarem e pedirem milhares de reais, na vã promessa dos contribuintes serem abençoados por Deus, numa barganha vergonhosa travestida de vontade do Senhor para a sua obra. Ou então, a contribuição que se dá pelo medo de ser consumado pela ira de um deus carrasco que fulminará sem dó àquele que não enfiar a mão no bolso e esvaziar a alma. Fico a pensar: “por que muitos estão sendo enganados e não percebem o buraco negro que estão entrando?”.

Não, eu não sou contra a prosperidade. Desde que ela venha como uma bênção de Deus para aqueles que, mesmo sem barganhar com o criador, tem sido graciosamente abençoado por Ele. Creio que Deus abençoa o seu povo. De diversas maneiras, inclusive financeiramente. Deus tem me abençoado de diversas formas. Quando Ele assim o faz de acordo com a sua soberana vontade. Não advogo a pobreza como pré-requisito de espiritualidade. Ainda existem pobres orgulhosos e ricos humildes.

No entanto, sejamos sinceros. Quantos crentes podem dizer hoje como Davi? “Mais vale o pouco do justo que a abundância de muitos ímpios” Salmos 37.16. E Salomão: “Melhor é o pouco, havendo justiça, do que grandes rendimentos com injustiça” Provérbios 16.8. E ainda em Eclesiastes 7.14 se diz: “No dia da prosperidade, goza do bem; mas, no dia da adversidade, considera em que Deus fez tanto este como aquele, para que o homem nada descubra do que há de vir depois dele”. Já não se ouve os cristãos dizerem como Paulo: “Tendo sustento e com que nos vestir, estejamos contentes” 1Timóteo 6.8.

O dinheiro ainda continua sendo um problema para o cristão hodierno. O pouco nunca dá, e o muito também. Como já disse alguém: “Dinheiro é como a água do mar: quanto mais uma pessoa bebe, mais sede sente”. Hoje, se um cristão tem muito dinheiro então ele é tido por alguém abençoado por Deus. Se não tem, então ele é um fracassado. Ou então não tem fé suficiente, ou está em pecado. Já existe até a “Bíblia da Prosperidade e Vitória Financeira”. J. Blanchard já disse que: “Poucas coisas testam mais profundamente a espiritualidade de uma pessoa do que a maneira como ela usa o dinheiro”. Concordo plenamente com ele.

Que relacionamento tenho que ter com o dinheiro? Devo me revoltar contra Deus? Devo colocá-lo na parede? Por que poucos têm muito e muitos nada têm? São perguntas que muitos fazem. A questão não é ter, é saber ousar. De que me serve o dinheiro se não traz bênção para aqueles que estão ao meu redor. Francis Bacon já dizia que: “Dinheiro é como esterco: só é bom se for espalhado”. Muitos “cristãos” vivem em função do vil metal. Acordam pensando nele, trabalham por ele, estudam pra ele, dormem abraçados nele. Muitos, por menos de trinta moedas de prata, ainda estão vendendo Cristo para seus inimigos.

A grande maioria dos cristãos brasileiros são pobres financeiramente falando. A única coisa que acham no bolso é poeira. Ou então, como dizia o Barão de Itararé: “Pobre, quando mete a mão no bolso, só tira os cinco dedos”.

A propaganda da televisão não condiz com a realidade. Graças a Deus que temos pessoas ricas dentro das igrejas evangélicas, mas a grande maioria faz ginástica financeira todo o dia. Quanto mais se exercitam mais ficam magras – no bolso. Tinha uma música da década de 80 do grupo “Camisa de Vênus” que poderia ser o “hino oficial” de muitos cristãos brasileiros. A música começava com a seguinte “oração”:

“Senhor vou lhe falar,
Nunca pedi assim,
Sempre rezei pros outros,
Mas desta vez é pra mim.
Perdi tudo que eu tinha,
Sei que fiz muita besteira,
Mas se você não achar meu bolso Deus,
Por favor coloque na carteira”.

E cujo refrão se dizia o seguinte:

“Deus me dê grana,
Deus, por favor,
Deus me dê grana,
Seu filho ta na de horror”.

Deus me dê grana! Eis a oração de muitos. Mas para entendermos bem este assunto é preciso compreender o que a Palavra de Deus diz sobre ele. Existem muitas passagens esquecidas nas Escrituras que falam sobre o nosso relacionamento com o dinheiro. Quero examinar apenas duas passagens com você:


(1) 1Timóteo 6.9-10 “Ora, os que querem ficar ricos caem em tentação, e cilada, e em muitas concupiscências insensatas e perniciosas, as quais afogam os homens na ruína e perdição. Porque o amor do dinheiro é raiz de todos os males; e alguns, nessa cobiça, se desviaram da fé e a si mesmos se atormentaram com muitas dores”.

Paulo nos diz que “o amor ao dinheiro” é a raiz de todos os males. Não é o dinheiro em si, mas o amor a ele. Males aqui é “kakos”, que significa: de uma natureza perversa; desagradável, injurioso, pernicioso, destrutivo, venenoso. Quantos pregadores, ministros e servos de Deus que amaram o dinheiro e envenenaram a alma?

Paulo nos recomenda no verso seguinte (v. 11): “Tu, porém, ó homem de Deus, foge destas coisas; antes, segue a justiça, a piedade, a fé, o amor, a constância, a mansidão”.


(2) Mc 4.18-19 “Os outros, os semeados entre os espinhos, são os que ouvem a palavra, mas os cuidados do mundo, a fascinação da riqueza e as demais ambições, concorrendo, sufocam a palavra, ficando ela infrutífera”.

Cristo nos ensina que as pessoas que ouvem a Palavra, mas seus corações estão envoltos em “espinhos”. E esses “espinhos” causam três características:

“Cuidados do mundo” = ou cuidados do tempo presente. Quantos cristãos não vivem assim? Esquecem-se do que Jesus disse em Lucas 12.15 “Então, lhes recomendou: Tende cuidado e guardai-vos de toda e qualquer avareza; porque a vida de um homem não consiste na abundância dos bens que ele possui”.

“Fascinação da riqueza” = fascinação aqui é “apate”, que pode ser traduzido por engano, falsidade. Sim, a riqueza fascina. Se eu dissesse que não fico deslumbrado com a riqueza estaria mentindo. Quando vemos os casarões, carrões, abundância de bens. Isso nos fascina, engana. Mas é falso. Quantos vivem assim e tem as suas almas destruídas? Quanto ricos não tem a alegria reinando em sua família? Quantos milionários viverão eternamente no inferno?

“Demais ambições” = ambições = “epithumia”. Que significa: anelo, anseio, desejo pelo que é proibido, luxúria. Tudo isso tem “sufocado” a Palavra. Quantos “cristãos” por correrem atrás disso tem deixado a sua vida infrutífera? John Wesley dizia: “Quando tenho um pouco de dinheiro, livro-me dele tão logo seja possível, para que ele não encontre o caminho de meu coração”.

Paulo nos aconselha em Atos 20.33: “De ninguém cobicei prata, nem ouro, nem vestes”. Acredito que Jesus quando olha para algumas igrejas de hoje tem vontade de repetir o que fez em João 2.15-16 “tendo feito um azorrague de cordas, expulsou todos do templo, bem como as ovelhas e os bois, derramou pelo chão o dinheiro dos cambistas, virou as mesas e disse aos que vendiam as pombas: Tirai daqui estas coisas; não façais da casa de meu Pai casa de negócio”. E Ele um dia o fará. É só esperar.

Para muitos, ganhar e ter dinheiro viraram sinônimos de vitória. E o que mais nos impressiona é a suposta “base bíblica” para defender seus devaneios. Um exemplo clássico, além dos textos citados, é o texto de Filipenses 4.13 – que virou um moto na boca dos cristãos hodiernos – que diz: “Posso todas as coisas em Cristo que me fortalece”. Só que os adeptos da teologia da prosperidade ignoram por completo o contexto da passagem. Veja o que diz os versos 11 e 12: “Não digo isto como por necessidade, porque já aprendi a contentar-me com o que tenho. Sei estar abatido, e sei também ter em abundância; em toda a maneira, e em todas as coisas estou instruído, tanto a ter fartura, como a ter fome; tanto a ter abundância, como a padecer necessidade”.

Em outras palavras Paulo diz-nos que poderia passar por qualquer situação – fome, abatimento, necessidade, ter de tudo e não ter nada – pelo simples fato de que a sua força, em momentos de tribulação ou não, era Jesus Cristo.

João Calvino via os negócios como uma forma legítima de servir a Deus e de trabalhar para a sua glória. O dinheiro não era problema, mas servia como para os cristãos, com seus bens e serviços, como uma forma concreta da comunhão dos santos, e advogava que aqueles que se envolviam nos negócios deveriam ter como objetivo ajudar os pobres e os ricos. Também defendeu que era boa alguma intervenção por parte do governo para a proteção do bem comum, a fim que “os homens respirem, comam, bebam e mantenham-se aquecidos”, pois o poder civil é uma vocação “santa e legítima diante de Deus, senão também muito sacrossanta e honrosa entre todas as vocações” (CALVINO, 1994:1171 – Institutas IV 20.3 – tradução livre).

Dou graças a Deus porque nunca enganei ninguém pra ganhar dinheiro. Nunca falsifiquei a pregação do Evangelho. Nunca deixei de pregar “todo o conselho de Deus”. Quem me conhece sabe que não minto. Ter a consciência limpa diante de Deus vale mais do que milhões de reais.

Como disse J. P. Senn: “O dinheiro adquirido desonestamente nunca vale o que custou, enquanto uma boa consciência nunca custa tanto quanto vale”. Sou rico da Graça de Deus. O Senhor tem me dado muito mais do que mereço. Apesar de me faltar muitas vezes o dinheiro, Ele nunca me desamparou. John D. Rockefeller disse acertadamente que: “O homem mais pobre que conheço é aquele que não tem nada mais do que dinheiro”. Deus já nos tem abençoado com toda a sorte de bênçãos espirituais nas regiões celestiais.

Tendo dinheiro ou não. Comprando muitos ou poucos livros, estudando com sacrifícios, sofrendo, chorando, gemendo, amando. Toda Glória seja daquele que faz todas as coisas de conformidade com o Seu querer.

IMPLICAÇÕES FINAIS

Augusto Nicodemus Lopes num artigo sobre o assunto, nos quais concordo plenamente, esclarece o seguinte:

1) Tudo que existe pertence a Deus. Ele é o Senhor de tudo e de todos. Nossos recursos não são nossos. Nem os da Igreja. Somos administradores dos bens que Deus nos confiou.

2) O dinheiro em si não é nem bom nem mau, dependerá do uso que fizermos dele e da nossa atitude para com ele. Podemos usar o dinheiro ou sermos usados por ele. Podemos usar o dinheiro para viver, ou viver para o dinheiro. O dinheiro, quando bem empregado, torna-se bênção para a vida de muitos.

3) A Igreja de Cristo, enquanto neste mundo, têm gastos e despesas com prédios, pessoal, impostos, salários, obra missionária e obra social. Para cumprir estes compromissos, ela busca recursos entre seus membros. Todos os que participam de uma igreja devem contribuir generosamente para a manutenção da mesma, não por obrigação, mas por entender a tarefa e a natureza da Igreja.

4) Toda contribuição para a Igreja é voluntária. Ela deve ser feita com amor, desprendimento e generosidade. Quem contribui para a Igreja deve fazê-lo sem esperar nada em troca, nem favores divinos e nem privilégios humanos. O Senhor Jesus disse que nossa mão direita não deve saber o que faz a esquerda, quando se trata de dar e contribuir.

5) A contribuição para a Igreja deve ser vista como um ato do culto que prestamos a Deus. Dar para a Igreja não é a mesma coisa de pagar uma mensalidade ou a prestação do seu carro ou de sua casa. Por este motivo, muitas igrejas separam um momento no culto onde os crentes, deixam suas contribuições diante do Senhor. No Antigo Testamento, o povo de Deus entregava suas contribuições em meio a cerimônias religiosas cuidadosamente planejadas para destacar a soberania de Deus sobre todas as coisas e nosso dever se servi-lo inclusive com nossos bens.

6) Nossas contribuições para a Igreja não compram benefícios da parte de Deus. É verdade que Deus prometeu abençoar e recompensar os que ofertam de coração alegre, mas esta bênção é gratuita e não deve ser vista como "comprada" por dinheiro. Isto seria uma grave ofensa diante de Deus. Simão Mago pensou que podia comprar com dinheiro o dom do Espírito Santo, mas foi rejeitado radicalmente pelo apóstolo Pedro.

Precisamos ter muito cuidado ao tratarmos destas coisas na Igreja. Dinheiro e religião é uma mistura potencialmente explosiva. Os princípios, regras e limites precisam estar claramente delineados.

Os meios de graça, como batismo e Ceia, são dados livremente pela Igreja a todos os verdadeiros cristãos, sem que para isto se consulte a lista dos pagantes e dos não pagantes, se a mesma existir. Atos pastorais como enterros, visitas, etc., estão disponíveis gratuitamente a todos que o desejarem. A Igreja sobrevive de ofertas voluntárias, que nada pedem em troca. E sem nada pedir em troca, a Igreja igualmente ministra os sacramentos e o cuidado pelas almas. O Senhor Jesus disse aos apóstolos (e, portanto, a todos os pastores): "De graça recebestes, de graça dai". Ele se referia ao Evangelho, que deveria ser ministrado ao povo gratuitamente. Neste sentido, pastores recebem sustento das igrejas, não salário.

Estas são algumas breves reflexões sobre este assunto tão complexo e delicado. Queira nosso Deus nos ajudar a achar o caminho correto em meio às nossas dificuldades.


SOLI DEO GLORIA NUNC ET SEMPER


*O Pr. Antônio Pereira da Costa Júnior nasceu em Esperança – PB. Co-Pastor da 1ª. Igreja Congregacional em Sta Cruz do Capibaribe – PE. Faz parte do quadro de ministros da AIECB (Aliança das Igrejas Evangélicas Congregacionais do Brasil). Casado com Esther, e Pai de Rachêl. Palestrante e pesquisador na área de Apologética em geral, Técnico Agrícola pela UEPB e Bacharel em Teologia pelo STEC (Seminário Teológico Evangélico Congregacional). E fez um curso de Apologética por extensão pelo ICP (Instituto Cristão de Pesquisas). Mestrando em Teologia e História pelo SPN – Seminário Presbiteriano do Norte – Recife – PE. E-mail: juniorapologista@yahoo.com.br

1 comentários:

Faculdade de Teologia disse...

O seu Blog está muito Abençoado!


abs!